Opinião

Leia a crônica de Remaldo Cassol: Padaria do Seu Pedruca

Por farrapo.rs
26/12/2017 08:55
 

Padaria do Seu Pedruca

As tardes podiam ser ensolaradas ou frias. Não importava. Jogávamos nosso futebol na rua Sete. Rua sem calçamento. O trafego era mínimo. Às vezes parava o jogo, ia passar um carro.

Estranhos dificilmente eram vistos. A gurizada já era conhecida dos que ali passavam. Sempre dizíamos: Olá seu Luciano! Olá seu Coca! Olá seu Chico Barata! Passem. Parecia que éramos os donos da rua. Os primeiros a chegar, colocavam pedras ou alpargatas para servir de goleiras.

Sendo gordinho, eram escalados para o gol. Quem escolhia o time, era o dono da bola.

De vez em quando, surgiam as costumeiras briguinhas. Lá aparecia seu Osvaldinho. Velho sapateiro. Resolvia as broncas.

Os ruis de bola, só conseguiam furo na saída de alguém. Ficavam na volta, jogando pião, bolita ou virando tampinha.

A rua mais parecia um parque infantil. Era inevitável. Volta e meia alguma janela aparecia com o vidro quebrado. A Casa Cruzeiro era alvo fácil.

A tardinha ia chegando. Com ela  o mais gostoso.

Cansados e suados, invadíamos a padaria do seu Pedruca.

Que delicia de pãozinho! Redondo, quentinho macio, coberto com farinha de trigo. Depois, dona Aurora trazia água fresquinha, vindo direto do poço. Pagamento? Sempre ficava para o  outro dia.

Os anos foram passando. Hoje, a rua está calçada, os carros são seus maiores donos. Virou rua de uma mão só.

Quanta "ruas sete" tinha nossa cidade As crianças brincavam. Pais tranquilos. Hoje é um salve-se quem puder. Dizem que isto é o progresso. Evolução da vida. Será verdade? Como eu gostaria de voltar ao passado. Andar tranquilamente em ruas que vão e que vêm.Brincar solto, tendo as calçadas como divisas. Que saudade! Jogávamos Aquela bola de borracha com muita força, mas ela sempre voltava para nós. Era fiel.

Daquele tempo sobraram bela recordações. Cada um foi para seu lado, lutando para sobreviver ao progresso. Hoje, não temos mais os pãezinhos do seu Pedruca. Tão puros, tão branquinhos. Para serem hóstias, só precisavam da consagração.


Por farrapo.rs

Farrapo